Os parceiros secretos da Rússia Os Vermelhos e a Geopolítica (Jeffrey Nyquist - 13/02/2025)
"Extrapolando medos falsos, o anticomunismo contemporâneo, em grande parte, provavelmente... dá origem a uma quimera, espectros e simulacros. O comunismo já não está mais presente (assim como o fascismo há muito deixou de existir) — em seu lugar resta uma imitação de gesso, um Che Guevara inofensivo, que faz propaganda de telefones celulares ou adorna as camisetas de jovens pequeno-burgueses ociosos e confortáveis. Na época da modernidade, Che Guevara era o inimigo do capitalismo; na época da pós-modernidade, ele anuncia conexões móveis em gigantescos outdoors. É nesse estilo que o comunismo pode retornar — na forma de um simulacro. O significado desse gesto comercial consiste em ridicularizar, de forma pós-moderna, as pretensões do comunismo de ser um logos alternativo dentro do quadro da modernidade." Aleksandr Dugin Sugerindo que o comunismo não é mais uma ameaça, o “filósofo” russo Alexander Dugin evita qualquer discussão sobre as estruturas comunistas da China, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Nicarágua, África Subsaariana, etc. Ele também ignora a infiltração comunista nos Estados Unidos (que continua até os dias de hoje). Enquanto isso, coronéis chineses vermelhos escreveram certa vez sobre a “guerra irrestrita”, dizendo aos leitores ocidentais que “exércitos profissionais são como dinossauros gigantes que não possuem força proporcional ao seu tamanho nesta nova era.” No entanto, a China vem construindo o maior dinossauro de todos. A propaganda dos últimos anos tem sido especialmente forte, de todos os lados, contra a reestruturação nuclear dos EUA. Em sua entrevista com Joe Rogan e outros sobre guerra nuclear, Annie Jacobsen descreveu nosso sistema de dissuasão da Guerra Fria contra um ataque nuclear soviético como “um picolé que se lambe sozinho.” Em outras palavras: constrói-se as armas, cria-se o medo de seu uso, o que gera a necessidade de mais armas. A ideia é que esse tipo de defesa seja irracional. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Esse tipo de defesa é essencial. Sem ela, não podemos sobreviver contra Rússia e China. Essa caracterização da outrora grandiosa dissuasão nuclear americana como “autolambível” serve aos interesses russos e chineses. Será que Jacobsen é estúpida? Em termos de pensamento estratégico, temo que muitas pessoas inteligentes compartilhem dessa estupidez. Rússia e China estão construindo armas nucleares de forma desenfreada. Como faz sentido sugerir (ainda que indiretamente) que a revitalização do nosso sistema de dissuasão seja um “picolé que se lambe sozinho”? Mais uma vez, devemos perguntar: a quem serve essa descrição? Esse tipo de discurso soa plausível para muitos ouvintes desatentos. No entanto, o conteúdo desse discurso alimenta o moinho do suicídio nacional. O pacifismo está na moda agora, e as pessoas querem desesperadamente acreditar na paz; mas nunca é bom perder o contato com a realidade. A história é pontuada por guerras, e isso é realidade. Nossas crenças deveriam refletir a realidade, certo? Sempre, nesses discursos, sentimos o cheiro da propaganda inimiga, cuidadosamente calculada para nos desarmar. Tudo aqui é veneno agradável para sonhadores mal-adaptados. No prólogo de Nietzsche sobre o último homem: “Um pouco de veneno de vez em quando; isso dá sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável.” Devemos lembrar, também, que as nações nascem e morrem em sangue. Nesse aspecto, Nietzsche foi um pensador que viu além. Na década de 1880, ele previu as guerras mundiais. Previu ditaduras massivas e guerras ideológicas. Previu que nossa civilização entraria em colapso no século XXI. Temo que ele tenha visto corretamente, por meio da intuição de uma loucura iminente. Ele também escreveu: “De tudo que se escreve, só amo aquilo que alguém escreveu com seu sangue. Escreve com sangue, e descobrirás que o sangue é espírito.” Observando seu meio do século XIX, Nietzsche voltou sua caneta venenosa contra “os leitores ociosos.” Quando se sabe como esses leitores modernos são, disse ele, o escritor nada pode fazer. “Mais um século de leitores,” acrescentou, “e o próprio espírito federa.” Todos aprendendo a ler arruinarão a escrita e o pensamento. Infelizmente, isso já nos aconteceu. Observar esse doloroso processo de degeneração intelectual – a descida à loucura por meio de trivialidades, pelas inúmeras trilhas da distração, pelo auto-abuso mental da ‘cultura woke’ ou da teoria da conspiração – é sentir o choque de uma doença psicológica que se perpetua através de distrações de todos os tipos. A civilização vem perdendo cada vez mais o contato com a realidade. Podemos reverter esse processo? Nietzsche acreditava que teríamos de atravessar essa insanidade coletiva crescente para alcançar algo do outro lado. Como seria esse “outro lado”? Observamos o processo político atual em busca de sinais de esperança. Alguns pensam que o realismo político do presidente Trump quebrará o feitiço da degeneração. Outros acham que Trump é apenas mais uma iteração da própria degeneração. Claro, uma correção real não virá pela política. Como muitos já disseram, a política está rio abaixo da cultura. O falecido Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro, dizia que a verdadeira mudança só virá depois que a cultura for regenerada. Estamos vendo mais verdades hoje, ou seriam “Novas Mentiras no Lugar das Antigas”? Observe o que pisca na tela e tente encontrar a verdade – que o aquecimento global está fazendo a Terra esfriar; que a Alemanha está sob ataque de sabotagem da Rússia (mas quem se importa?); que Rússia e China estão se preparando para uma guerra contra o Ocidente; que 100 bilhões de dólares em ajuda dos EUA à Ucrânia desapareceram (segundo o presidente Zelenskyy); que Putin autorizou ataques nucleares à OTAN a partir da Bielorrússia; que a Rússia está se preparando para invadir território da OTAN na lacuna de Suwalki; que os japoneses estão reunidos com autoridades americanas para conter a China no Pacífico. Todos os idiotas úteis estão tagarelando; a economia da Rússia está à beira do colapso, a da China está trêmula, Trump está promovendo uma agenda que ninguém entende completamente – com ziguezagues. Claro, a verdade vencerá depois que cada mentira tiver seu dia. O ex-secretário de Estado John Kerry costumava dizer: “Daniel Ortega é um democrata incompreendido, não um marxista.” E agora, felizmente, as pessoas estão percebendo que John Kerry é um marxista incompreendido, não um democrata. Só podemos esperar que os conservadores americanos vejam que Alexander Dugin é um servo de Putin e Xi no ‘campo socialista’, e não um tradicionalista. O que estamos vendo se desenrolar é um plano de longo prazo, uma vez descrito por desertores como o Major da KGB Anatoliy Golitsyn e Jan Sejna. Após muitos tropeços, retrocessos e muita corrupção kleptocrática, o antigo bloco socialista segue adiante — implacável e incompetente — enquanto o Ocidente permanece sonolento. Poucos comentaristas estão dispostos a dizer que Rússia e China estão vindo contra nós. Por quê? Simplesmente porque qualquer um que tenta é punido, ostracizado, colocado na lista negra. A esquerda tem seus agentes em todos os lugares. Grandes empresas estão, em parte, no bolso da China. A direita ouve Tucker Carlson e Steven Bannon. Sempre vigilante para purgar o anticomunista perceptivo, esse meio não está aberto à realidade. “Um dos problemas fundamentais do Ocidente”, escreveu Jan Sejna em 1982, “é sua frequente falha em reconhecer a existência de qualquer ‘plano mestre’ soviético.” Dentro da CIA, o testemunho do desertor Golitsyn sobre esse ‘plano mestre’ foi ridicularizado como uma “teoria conspiratória monstruosa”. Ainda assim, aqui estamos, com o plano monstruoso se desenrolando mais ou menos como Golitsyn previu. Muito do que estava no livro de Sejna também se concretizou: a dissolução do Pacto de Varsóvia como artifício para destruir ou enfraquecer a OTAN, a infiltração no Ocidente, o “advento ao poder em Washington de um governo liberal e progressista de transição...”. Esse governo chegou ao poder sob Clinton, depois Obama, e então Biden. Mas o instrumento corrupto da subversão não estava tão disposto a cumprir seus compromissos — ou seja, cometer suicídio político após a liberalização de Moscou. E a economia dos EUA, apesar de atingida por todos os tipos de políticas ruins, não colapsou como o plano comunista previa. Tal colapso, no léxico comunista, seria o sinal para a tomada de poder e a ditadura do proletariado. Mas a ocasião veio e passou, interrompida pela presidência de Donald Trump — duas vezes. No entanto, o perigo de que esses planos se cumpram por meio de conflitos militares, sabotagem econômica, ou um ataque total ao dólar, permanece. Descobriu-se, de forma bastante óbvia, que Sun Tzu não era o gênio que diziam que era. Carl von Clausewitz alertava contra a ideia de vencer sem lutar. Em Pequim e Moscou, essa tem sido uma descoberta dolorosa. Não pode haver vitória final sem uma grande guerra, sem uma “guerra de continentes”. Claramente, houve um retorno à crença de Lênin de que Clausewitz era um verdadeiro sábio. Há três anos, Moscou está em guerra na Europa enquanto Pequim se prepara para uma guerra no Pacífico. E a corrida armamentista chinesa está acelerando. Para compreender o processo estratégico em andamento, é preciso recorrer à obra de Alexander Dugin. Em seu livro A Última Guerra da Ilha Mundial, encontramos uma justificativa “geopolítica” para que a Federação Russa siga uma política de subversão e conquista ao estilo soviético contra o Ocidente. Como o marxismo-leninismo explícito já não é mais estiloso, o eurasianismo de Dugin tem servido como substituto. Nele encontramos uma mistura de bolchevismo nacional, tradicionalismo, perenialismo e outros elementos. O que todos parecem ignorar nisso tudo é a metamorfose bolchevique que está na base. Tudo no eurasianismo de Dugin é operacionalmente coerente com os antigos objetivos comunistas. É interessante que Dugin se refira, já na segunda página de seu livro, a “diferentes estágios históricos” — uma expressão que se poderia esperar de uma cópia marxista. Ainda assim, Dugin oferece a seguinte crítica útil: “…a questão da atitude da sociedade russa em relação às formas políticas e tipos de governo permanece em aberto. Se no período marxista éramos guiados pela teoria do progresso e pelas mudanças dos blocos político-econômicos, e considerávamos a experiência dos países da Europa Ocidental como ‘universal’, então hoje esse esquema reducionista já não é mais adequado.” Os marxistas-leninistas previram isso eles mesmos na década de 1980. Gorbachev foi a personificação dessa percepção. O marxismo aberto teve que ser arquivado, por razões estratégicas. Era necessária uma abordagem mais ampla para conquistar corações e mentes, globalmente, se Moscou e Pequim quisessem se tornar “senhoras da terra”. Era preciso, portanto, criar mutações da ortodoxia, catolicismo, protestantismo, islamismo, hinduísmo e budismo – mutações que pudessem ser enxertadas num nacional-socialismo camaleônico. Se a Rússia quisesse conquistar a direita religiosa e nacionalista, o marxismo antiquado teria que ser colocado numa sala dos fundos. Mesmo assim, o fracasso do socialismo foi algo com que o próprio Lenin lidou nos anos 1920. O Ocidente, tendo seu próprio tipo de socialismo, bastava a Moscou e Pequim neutralizar a direita antissocialista, eliminando o terreno intermediário constitucionalista e capitalista. Foi uma manobra. Mudar a embalagem, remover o rótulo antigo, fundir a direita em uma forma disfarçada de marxismo. Não devemos nos deixar enganar pela pose antimarxista de Dugin. Em nenhum lugar ele se opõe ao marxismo por motivos morais, ou com base no argumento de que ele prejudicou a Rússia ou o povo russo. Cinicamente, ele escreve: “Devemos construir um novo modelo da história sociopolítica russa, estudar a lógica dessa história, e propor generalizações estruturais que reflitam as peculiaridades características das relações de nossa sociedade em diferentes estágios históricos, com outros sistemas governamentais e políticos.” É claro que falar das “relações” da sociedade e dos “diferentes estágios históricos” é alimento para o moinho marxista. Aqui encontramos o historicismo de Marx pragmaticamente unido a um plano de sedução voltado aos conservadores. Um dispositivo é, portanto, engendrado – uma solução política temporária – necessária para uma futura estratégia de convergência Leste/Oeste na Europa. “E, nesse caso,” observou Dugin, “infelizmente, temos poucas obras relevantes, já que as teorias marxistas produzem caricaturas notórias, baseadas em exageros e violências contra os fatos históricos e especialmente contra o seu significado.” Esta é uma boa autocrítica, no sentido marxista. A vitória sobre o Ocidente continua sendo o objetivo. Qualquer coisa no marxismo que prejudique a causa deve ser corrigida. Não existe dogma marxista, segundo o próprio Marx. Lenin sabia disso e escreveu sobre isso. O que aconteceu nos últimos trinta anos é lógico; ou seja, construir um leninismo melhor, sem o rótulo de Lenin. (Mas, ainda assim, mantiveram as estátuas de Lenin na Rússia.) Sempre foi um erro atacar o capitalismo diretamente, especialmente quando isso implicava atacar teologias e costumes populares. Sempre é melhor pegar um inimigo pelo flanco. Essa é a missão de Dugin, em termos de seu ataque aos valores conservadores por meio de uma pretensa defesa do tradicionalismo. Pense da seguinte forma: Houve um tempo em que o marxismo-leninismo tentou atacar diretamente os valores do Ocidente e sofreu reveses. Melhor, então, adotar alguns desses valores – como quem veste um figurino. Stalin fez isso muitas vezes. Por que não fazer mais do que Stalin fez nesse sentido? É nesse contexto que Dugin escreve sobre uma “geopolítica russa plena”. Por que geopolítica? Porque, até aqui, os anglo-saxões sabiam como empregar a geopolítica a seu favor, dominando os mares e o comércio mundial. A teoria de como o mundo funciona, e de como deveria funcionar, foi algo que britânicos e americanos consideraram. Usando o mesmo modelo, os russos poderiam construir sua própria teoria, tomando como ponto de partida a posição da potência terrestre dominante na Ilha-Mundo (ou seja, Eurásia/África). Esse ajuste de perspectiva, Dugin admite, é subjetivo, mas “devemos nos entender não como um observador neutro, mas como um observador inserido num contexto histórico e espacial.” Esse “procedimento” ele chama de “apercepção geopolítica.” Ele segue descrevendo esse “subjetivismo” em termos bastante grandiosos – como “a capacidade de perceber conscientemente a totalidade dos fatores geopolíticos…” Essa formulação é estranha, e é suspeita. Dugin está enganando seus leitores, desviando-os de maneira sutil, prometendo maiores insights. Ao olhar no índice do livro de Dugin por referências à China, que é uma nação importante também localizada na “Ilha-Mundo”, chegamos ao cerne de sua formulação enganosa; pois o marxismo, assim como a geopolítica de Dugin, trata os fenômenos “holisticamente”. No entanto, Dugin passa por cima da China, como se a China fizesse parte da Federação Russa; isto é, parte do mesmo bloco militar. À medida que continuamos lendo, torna-se claro que o coração da Ilha-Mundo esteve inicialmente sob Stalin durante a era do pós-guerra. Ele exemplificava o estilo “espartano” da sociedade socialista, consistente com o que Dugin chama de “telurocracia plena”. A importância da China nesse esquema é deliberadamente omitida. No entanto, temos razão para acreditar que uma versão anterior de seu manuscrito fazia menção à China, porque o índice diz que a China é mencionada ali. Em vez de chamar atenção para fatos que revelariam o jogo, a unidade ideológica da China e da Rússia é apenas insinuada, onde Dugin escreve sobre Mackinder e Savitskii, “que consideravam sob diferentes pontos de vista o futuro geopolítico dos bolcheviques...”. Esse futuro é o da Rússia Soviética e da China Soviética, manifestando-se em 1917 e 1949, respectivamente. Aqui, a batalha entre o Beemote comunista terrestre e o Leviatã marítimo aludida por Carl Schmitt é ignorada, mesmo enquanto a China foi retirada do texto. “Funcionalmente,” diz Dugin, “Stalin foi um ‘czar russo,’ comparável a Pedro, o Grande, ou Ivan, o Terrível.” No entanto, o índice diz que ele deveria ter iniciado uma discussão sobre a China na página anterior, antes de sublinhar o suposto “czarismo” de Stalin. Aqui, a unidade dos bolcheviques é eclipsada intencionalmente ao caracterizar o Beemote da Ilha-Mundo como “czarista” sob Stalin, e não como comunista. Não sabemos o que o trecho original no livro de Dugin dizia. Sabemos apenas que os editores esqueceram de corrigir o índice ao apagarem qualquer menção à China como parte do bloco comunista. Mais revelador ainda, Dugin eventualmente admite que a Terceira Internacional “tornou-se um instrumento geopolítico para a propagação da influência russa terrestre, telurocrática, ao redor do mundo. Em termos de ideologia,” continuou Dugin, “tratava-se de uma rede internacional, planetária, não vinculada a um território. Mas em termos de estratégia, a Terceira Internacional cumpria a função de instrumento geopolítico para a expansão da zona de influência geopolítica do Coração Continental.” Aqui Dugin reforça a ideia de que o próprio comunismo era uma camuflagem por trás da qual o imperialismo russo continuava a funcionar. Esse tema favorito dos anticomunistas contrários ao anticomunismo no Ocidente sempre foi útil para Moscou e Pequim. Ele lisonjeia um dos mais mortais mal-entendidos dos analistas ocidentais; a saber, que as ideias comunistas não têm significado ou importância estratégica. E Dugin sublinha essa lisonja ao explicar que o “messianismo ortodoxo do século XVI foi maravilhosamente refletido no ‘messianismo’ comunista bolchevique da revolução global com seu núcleo em Moscou, capital da Terceira Internacional.” Depois de muitas páginas, a existência da China é finalmente reconhecida nesse livro “geopolítico”, embora a China seja imediatamente descartada como irrelevante: “A China estava em uma condição extremamente fraca e estava, em grau significativo, sob controle dos ingleses.” Em nenhum momento Dugin admite que Stalin inicialmente apoiou a China Nacionalista, com conselheiros militares soviéticos e mais. Stalin claramente percebeu a importância da China desde cedo. Por que Dugin minimiza isso? E depois que os nacionalistas expulsaram os comunistas do Partido, não foram os britânicos que forneceram conselheiros militares à China. Foram, curiosamente, os generais alemães que ajudaram os chineses nacionalistas após a saída dos soviéticos. No entanto, Dugin cita os britânicos. Então, ao discutir o pós-Segunda Guerra Mundial, ele divaga sobre o duelo bipolar entre Leviatã e Beemote, esquecendo-se de mencionar a adesão da China ao “império telúrico da Terceira Internacional.” Dugin é astuto em suas omissões históricas. Para ele, a geopolítica é uma luta entre potências marítimas comerciais (ou talassocráticas) como Atenas, Cartago, Grã-Bretanha e Estados Unidos, versus potências terrestres telurocráticas como Esparta, Roma, Alemanha e Rússia. Mais uma vez, queremos saber onde a China se encaixa nessa análise, mas Dugin ignora a questão da China. Inevitavelmente, Dugin desvia de uma discussão sobre a vitória da Terceira Internacional na Guerra do Vietnã para a cisão sino-soviética: “Na política externa, Khrushchev perdeu um aliado importante na China maoísta, cuja liderança respondeu de forma muito desfavorável à derrubada do culto a Stalin e à sua política em geral.” Dugin então admite que a política de Stalin foi continuada sob Khrushchev; e então, com o advento de Brezhnev (que era ainda mais próximo da linha de Stalin), ele falha em explicar por que a cisão sino-soviética teria continuado. Se a denúncia de Stalin por Khrushchev causou a cisão, por que o neo-stalinismo de Brezhnev não a curou? Dugin não tem nenhuma percepção a respeito disso. O fato de Dugin ser criatura da estratégia de Moscou, e não um estrategista real, talvez explique suas ofuscações e omissões. Seus escritos são, sem dúvida, supervisionados pelas autoridades da Federação Russa. Sua pretensão de independência e integridade intelectual, sua postura crítica em relação ao marxismo, é em função de seus seguidores da alt-right e religiosos. Retornando ao índice do livro em busca de mais referências à China, na página 75 ele se refere à China como mais parte da estrutura unipolar dos Estados Unidos: “A nova [pós-Guerra Fria] arquitetura das relações internacionais,” ele diz, é “construída sobre a dominação exclusiva dos EUA….” Ecoando Vladimir Putin, Dugin diz que a queda da União Soviética foi “um passo catastrófico para trás.” Mas a Rússia vai se recuperar, ele explica. Em seguida, descreve a luta da Rússia para ultrapassar os Estados Unidos. Ele escreve: “Sob várias ideologias e sistemas políticos, a Rússia caminhou rumo à dominação mundial [sob Putin].” Dugin então prevê uma “grande guerra de continentes” que começa após a Rússia parar de cooperar com a OTAN. Essa cooperação, ele diz, é “uma patologia, um desvio da… [sua] trajetória histórica natural e inegável.” A trajetória correta, ele afirma, é de dominação da massa continental eurasiática e, por extensão, do mundo. “A normalização do vetor histórico natural da Rússia só ocorreu com a chegada de Putin ao poder,” observa Dugin, acrescentando que a Rússia precisa de “uma personalidade enérgica e de vontade firme à frente do governo” e de “um novo tipo de elite dirigente e uma nova forma de ideologia.” Tendo aconselhado os líderes da Rússia a adotarem uma política agressiva, Dugin então atribui intenções militares agressivas à OTAN quando escreve: “…as forças do atlantismo não hesitarão em desferir um golpe decisivo contra seu principal adversário na grande guerra de continentes. Todas as discussões que alegam que o Ocidente já não vê a Rússia como rival e está apenas preocupado com a ‘ameaça islâmica’ ou com o crescimento do potencial da China não passam de tática diversionista e de armas numa guerra de informação.” A Rússia é o inimigo mais perigoso e primário do Ocidente, segundo Dugin. A grande “guerra de continentes” é inevitável, ele explica. A escola geopolítica, que vê a Eurásia em oposição às potências marítimas do Ocidente, é abraçada pelos generais russos. Por que Dugin parece deslocar a China nesse esquema? (...)